Oportunidades na Crise

oportunidade na crise, porta aberta

Em abril participei de um evento sobre Mercado Imobiliário realizado em Nova York. A temática eram oportunidades no mercado imobiliário na América Latina. Cada painel tinha como tema um país. Todos tentavam atrair os olhos dos investidores para as oportunidades de negócio em seu País. A plateia composta de investidores do Mundo inteiro, muitos representantes de fundos imobiliários bilionários, observavam com atenção as exposições.

Porém, a grande estrela do evento era aguardada: Sam Zell, bilionário Estadunidense, que há mais de 45 anos opera no Mercado Imobiliário. Suas opiniões influenciam vários investidores. É um formador de opinião no real state market Mundial. Há alguns anos Zell investe no Brasil. Tem participações em negócios de imobiliários por aqui. Porém, havia expectativa sobre o que ele falaria sobre o nosso Pais. Estaria Zell retirando-se do nosso mercado, em face da crise que nosso País mergulhara? Desaconselharia investimentos por aqui? Aos poucos a dúvida foi se dissipando. Após criticar severamente os acontecimentos ligados a corrupção na Petrobrás e nosso Governo, sustentou que o Brasil ainda possui um cenário otimista. O fato de sermos um País de 200 milhões de habitantes, nos transforma em um excelente mercado no âmbito Mundial. Confortou a todos os Brasileiros que ali estavam.

Após ouvir outros painéis, sobre outros mercados que hoje despertaram o interesse de investidores Mundiais, tais como a Colômbia, uma coisa não me saiu da cabeça. O Brasil é um País com um mercado promissor na América Latina e no Mundo. Mostramos isto nos últimos anos. Surfamos a onda da expansão. A capacidade de consumo aqui instalada é incrível. Temos, na nossa cultura, o hábito do consumo.
Procurei colher de participantes do evento – muitos investidores e empresários Brasileiros – algumas opiniões sobre o momento vivido pelo nosso mercado imobiliário. A resposta era sempre a mesma. O mercado imobiliário é cíclico. Vivemos nos últimos anos no Brasil, momentos de altas e de baixas. Agora o momento é de baixa. Não significa que o desaquecimento deste mercado representa uma perene imersão numa crise. Não! Não significa que com a baixa o mercado estagnou. O cenário é de retração e não de estagnação.

Esta circunstância vivida me fez lembrar o bem lançado artigo escrito por Nizan Guanaes, no Jornal do Comércio, com o título: Liderar na Crise. Neste, o brilhante publicitário, convocava a todos a se superar com a crise. Lembrava que o frio inventou o fogo, a distância inventou a roda; é o problema que cria a solução. Pura verdade!

Aliás, em termos de superação nosso País é único. Todas as grandes empresas por aqui não foram criadas em um cenário de prosperidade. Pelo contrário. Tiveram que superar várias dificuldades. Várias crises. Aliás, o empresário Brasileiro é antes de tudo um guerreiro, podemos dizer: um teimoso. Num País onde todos dizem para não empreender, pois a carga tributária é altíssima. A legislação trabalhista é ultrapassada. Os licenciamentos ambientais são um desafio. Há dificuldades econômicas e políticas de toda ordem. A burocracia impera e desestimula a qualquer um lançar-se na aventura de ser empreendedor por aqui. Apesar de tudo, formamos aqui grandes empresas. Formamos em nosso País empresários do quilate de Jorge Paulo Lemann e de Jorge Gerdau, só para ficar com dois nomes.

Sem tirar os olhos do que ocorre nos grandes centros, o cenário de superação também é por aqui percebido. O Litoral Norte do Rio Grande do Sul também tem produzido grandes empreendedores, especialmente no mercado imobiliário. Como forma de homenagem e reconhecimento, importante citar os nomes de Elmar Ricardo Wagner e Dilceu da Silva Costa. Empresários que – por várias vezes – se depararam com um período de baixa, sem abandonar seus projetos. Empresários que souberam navegar em águas revoltas. Em mares turbulentos. Contudo, souberam tirar o melhor destes momentos. Souberam permanecer neste mercado dinâmico sem serem vítima do mesmo.
Nestes quase trinta anos de advocacia e mais de vinte de magistério superior, exercidos aqui na nossa Região, aprendi a respeitar e admirar estes profissionais locais. Alguns deles, com uma inteligência e espírito empreendedor sem igual. Todos, tal qual o reconhecido mundialmente Sam Zell, souberam enxergar na crise uma oportunidade para bons negócios, não abandonando o mercado. Vários, saíram destes momentos de baixa, mais fortes do que entraram.

Aliás, nestes tempos líquidos, parece que aprendemos que a mudança é uma das grandes e poucas certezas desta vida. Aprender a conviver com as mesmas é uma necessidade. O processo de inovação, tão necessário nos dias de hoje, já é vivido pelo nosso mercado imobiliário há vários anos. A construção civil tem se reinventado. A cada ano vê-se projetos mais criativos em condomínios de apartamentos. Vê-se surgimentos de jovens arquitetos dotados de ideia inovadoras. Os condomínios fechados inovaram de forma disruptiva a forma de se morar e veranear. Hoje, temos em nosso Litoral, imóveis que não devem nada aos mais requintados do Mundo. O hábito de vir para a praia somente no Verão há muito não existe. O Litoral é frequentado por milhares de pessoas durante todo o ano. Tudo isto, pela mão de empreendedores, que em momento de crise, tiveram que se reinventar. Aqui, a lei de Darwin, que prega que quem sobrevive não são os mais fortes, mas sim os que tem capacidade de adaptação às novas condições, ganha foros de realidade. Como já se disse, no futuro teremos duas espécies de empresas, as que se inovaram e as mortas.
Assim, ninguém nega as dificuldades econômicas que vivemos. As previsões descortinam, por algum tempo ainda, um cenário de dificuldades.

A crise, que é notadamente mais política que econômica, nos imporá alguns sacrifícios. Contudo, podemos ver a crise como uma oportunidade. É o momento de perfilarmos novos negócios. Novos produtos tem espaço. Novas arquiteturas jurídicas devem ser utilizadas para estruturar estes empreendimentos. Novos players devem ser chamados. Os profissionais da área devem estar mais bem preparado. O Oceano Azul encontrado no mercado imobiliário nos últimos anos não existe mais, pelo menos na forma me que este se apresentava. O desafio é encontrar outro. Devemos nos adaptar. Não podemos fazer as mesmas coisa e esperarmos resultados diferentes. É hora de inovar. Pois, como lembra Nizan Guanaes, enquanto outros choram eu vendo lenços.

Por Luís Antônio Longo, Advogado, Mestre em Direito e Professor Universitário.



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